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Vida
urbana
Avenida Paulista. Centro .nanceiro do país.
Tempo escasso. Correria. Sol. Relógio.
Do alto do MASP um pássaro olhava tudo.
Atento ele seguia os milhares de sons, talvez
tentando entender porque o ser humano faz tanta
bagunça.
Não me contive e parei pra olhar o pássaro.
Gostaria de saber no que ele estava pensando.
Como via tudo aquilo lá do alto. Será
que ele teria a solução?
Acordei com uma buzina de ofensas de um motorista
furioso. eu estava atrapalhando o trânsito
de uma das avenidas mais movimentadas do país,
mas, certamente ele não notou o pássaro...
aliás, ninguém ali tinha notado.
É incrível como alguns momentos
passam despercebidos pela gente ao longo do
dia, da semana, do mês, do ano... da vida.
Você viu o sol hoje? Não viu porque
sabe que ele vai estar lá todos os dias,
naquele mesmo horário. Então pra
quê contemplá-lo agora? Deixa pra
depois.
Você prestou atenção naquela
árvore que .oresceu ontem? Não
porque sabe que amanhã ela vai estar
lá, naquele mesmo lugar, daquele mesmo
jeito.
Então pra que percebê-la hoje?
Deixa pra amanhã. Ou pra depois... pra
qualquer outra hora, menos para agora.
E assim a gente vai passando pela vida. O relógio
correndo e a gente adiando. Sempre adiando.
Muito mais fácil deixar pra amanhã.
O amanhã dói menos, dá
menos trabalho. E é assim, vivendo de
amanhã, que a vida passa. E lá
no .m a gente acaba pensando no ontem, que já
passou e nada mais pode ser feito. Já
foi.
E assim, quando no .m, tentar fazer uma retrospectiva,
nada mais que uma vida de momentos adiados,
felicidades não vividas, amores interrompidos...
Fui embora e de longe olhei novamente e o pássaro
continuava lá. Olhando tudo. Prestando
atenção em cada detalhe.
Penso que ele volta pra .oresta e conta toda
a piada para os outros animais que caem na risada.
Riem de como o ser humano leva a vida. Ou melhor,
de como não leva, mas sim, de como se
deixa levar.

Thiago
Guimarães
Ilustração: Fernando Zornoff
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